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Flexibilidade e trabalho híbrido são a nova rotina nas empresas

Published on: 2024/01/19
Flexibilidade e trabalho híbrido são a nova rotina nas empresas
Na pandemia. quase todo mundo teve de se adequar, no susto, a trabalhar de casa e os resultados foram excelentes. O home offlce, que já existia em alguns lugares e empresas, ganhou status e proporções elevadas e, assim, estava praticamente selado o fim dos escritórios. Depois, com o planeta voltando a girar numa oerta normalidade, surgiram ou retomaram outros questionamentos e cá estamos.

O ano de 2024 chegou e a polêmica continua:
Remoto? Híbrido? Presencial? O que afinal, nos aguarda?

É fato que as empresas ainda não acharam o formato ideal. mas, definitivamente, não será um retorno ao modelo que tínhamos no passado. Logo, esqueça a necessidade de escritórios que comportem todos os colaboradores de uma única vez. mas, os espaços físicos não desaparecerão.

A COVID-19 mostrou que dava pera trabalhar de outro outro jeito e a produtividade até aumentou. Por outro lado, queixas de que a conexão diminuiu foram registradas em muitas companhias. “Com o home office, conexões e vínculos de confiança demoram mais a se estabelecer, o que, consequentemente, faz com que algumas pautas se arrastem por mais tempo que o necessário nas organizações. Assim, nos demos conta que o modelo de trabalho 100% presencial já não caberia e o modelo 100% home office também tem os seus desafios”, avalia o sócio da Escola Caos, Anderson Bara.

Os dados demonstram que funcionários que não trabalham no mesmo local que seus gestores são 10% menos propensos a sentir que alguém se importa com eles no trabalho. Também são 10% menos prósperos a dizer que são reconhecidos por suas contribuições, segundo estudo . Não à toa flexibilidade e trabalho híbrido serão a bola da vez este ano. 

Viagem no tempo

Desde a Revolução Industrial até a Era da Computação e da Internet, a sociedade tem passado por transformações significativas no ambiente de trabalho. No entanto, nenhuma mudança foi tão rápida e impactante quanto a adoção em massa do trabalho remoto durante a pandemia. Essa alteração repentina vem antecipando uma demanda que estava prevista apenas para 2030: a sociedade 5.0, onde a flexibilidade é fundamental.

Tiago Alves, CEO da Regus e da Spaces Brasil, antecipou esta conversa e o que se prevê como tendência no livro “Nem home nem office: o futuro do trabalho é híbrido”. Ele comenta: “O que a gente viveu na COVID já é comparado a uma mudança de hábito, uma mudança da nossa sociedade como um todo, que foi a adoção em massa do trabalho remoto e a permissão de que as pessoas possam ter mais flexibilidade no seu ambiente de trabalho, seja com localização flexível, seja com horário flexível”.

Muitas empresas, inclusive, já reformularam suas políticas utilizando uma quantidade mínima de dias para o funcionário atuar presencialmente e tudo aponta que essa será a tendência, conforme números da pesquisa da FGV IBRE. Para se ter uma ideia, em 2021, 57,5% das empresas brasileiras haviam adotado o modelo home office e este percentual já diminuiu para 32,7%.

A vídeo manager da 99jobs, Olivia Lopes, vivencia isto no dia a dia com candidatos a vagas dando preferências a empregos onde as organizações atuem de forma mais flexível.

“Por mais que as pessoas tenham voltado ao escritório, ganhou-se qualidade de vida no modelo do home office, porque não tem o deslocamento, você precisa pensar menos na roupa que vai usar e pode resolver as coisas do seu trabalho de maneira mais rápida na sua casa. Então, a maioria dos profissionais brasileiros não quer abrir mão de ter, pelo menos, o direito de trabalhar de casa algumas vezes na semana”, analisa Olivia.

Olívia Lopes – Gerente de vídeo na 99Jobs.

O que diz a lei

As mudanças no cenário do trabalho também devem ser avaliadas do ponto de vista jurídico, destaca a advogada trabalhista do escritório Chiode Minicucci Advogados | Littler, Pâmela Almeida da Silva Gordo. Segundo ela, não há impeditivo legal para o retorno à empresa. “Segundo o artigo 75-C, parágrafo 2º, da CLT, a mudança deve ser formalizada por meio de aditivo contratual, com aviso prévio de, no mínimo, 15 dias”.

Mas é importante estar atento às convenções coletivas de trabalho, que podem estabelecer condições diferentes. “O entendimento é claro: a empresa tem o direito de determinar o retorno, garantindo um prazo de transição aos empregados”.

Ela diz ainda que o empregado pode negociar condições diferenciadas, porém a organização não é obrigada a aceitar. “Caso o colaborador se recuse a retornar, medidas disciplinares podem ser aplicadas, desde advertências até dispensa por justa causa”.

Quanto ao trabalho híbrido, a advogada esclarece que a lei não o regulamenta de forma específica, aplicando-se as mesmas regras do teletrabalho. E, mesmo sem estabelecer dias fixos para o trabalho presencial, é crucial delinear as regras e condições. Aqui também vale a importância de consultar as convenções coletivas que podem trazer requisitos adicionais.

PÂMELA ALMEIDA DA SILVA GORDO – Advogada

Claro que todo mundo tem boleto para pagar e nem sempre o que o coração quer o bolso pode. Porém, as companhias que oferecem apenas o presencial acabam, muitas vezes, preteridas em relação às que têm o híbrido como modelo de trabalho, explica Olivia. 

“O modelo híbrido é queridinho pelos brasileiros. A gente está acima da média mundial, inclusive. Então, quando uma empresa oferece o modelo apenas presencial, isso é percebido como uma falta de valor. Se uma pessoa está disputando dois processos seletivos, a maioria vai preferir quem oferecer o híbrido”, acrescenta Olivia.

O CEO da Regus e da Space Brasil concorda e lembra que, atualmente, a primeira pergunta quando as pessoas vão para uma entrevista de emprego, antes mesmo do salário, refere-se ao modelo de trabalho: “Isso virou pergunta que o RH está tendo que lidar e aconselhar executivos nesta direção. Não dá mais para voltar ao mundo como era em 2019, presencial, todo dia das 8h às 17h. Não é isso que vai atrair talentos. As pessoas olham para o salário como renda, mas querem ter tempo livre, ter propósito no que fazem. Querem também que a empresa tenha propósito”.

Por isso, o trabalho híbrido ganha cada vez mais espaço. “Ir para o escritório é onde você gera conexão entre pessoas, gera essa criatividade coletiva, recebe clientes e fomenta a sua cultura. Agora, quando eu estou trabalhando de casa, é onde posso ter mais flexibilidade, talvez ter um tempo maior de foco para realizar atividades que faria sozinho”, afirma Tiago.

Desafios

Mas, será que quem põe a mão na massa está feliz com este cenário? Ingrid Sthepanie Ladario é analista na área de TI e já começou a trabalhar na atual companhia no modelo remoto no auge da pandemia. Aproveitou o momento até para trocar de cidade. Morava em São Paulo e foi para o litoral paulista e é de Guarujá que executa sua função.

“Consegui este emprego em outubro de 2020. Nunca fui à empresa, nem para assinar documentos. A gente fez tudo digitalmente. Ela até fechou um dos escritórios e mantém um espaço menor agora. Para ir lá, precisa agendar, porque não tem lugar para todo mundo. Não conheço nenhum dos meus colegas de trabalho pessoalmente”.

Ela nem pensa em voltar ao trabalho presencial depois que descobriu que, sim, é muito produtiva no home office e tem uma qualidade de vida que considera bem  maior que antes.

“Desde 2020, as pessoas ficaram 100% remotas e a empresa chamou parte do pessoal só em 2023. Pelo que executo, não acho que serei chamada, até porque mudei de cidade. Mas sempre existe a chance. Não pra mim, isso já não é mais uma opção. Pra eu ir pra empresa agora, fiz as contas, são mais ou menos cinco meios de transporte que tenho que pegar, fazendo baldeações. Então, não tem mais possibilidade”.

INGRID STHEPANIE LADARIO - Analista de TI

Do home office ao trabalho híbrido

Para Vania Lopes, que é mãe solo, o home office passou de susto para um encontro perfeito, mantendo seu ritmo de trabalho, mas com um relacionamento mais próximo de sua filha Laura, hoje com 11 anos. Ela atua em um grande banco no segmento de alta renda como gerente de relacionamento comercial. 

“Nunca tive essa rotina de trabalho remota. No início foi um pouco difícil de acreditar que daria certo. Tive dúvidas: será que consigo ter a mesma produtividade? Como será estar em casa full time visto que trabalho desde os meus 16 anos e sempre de forma presencial?”, se questionava.

Mas as respostas vieram tão depressa quanto a adaptação: “Foi muito fácil, tive todo o respaldo da instituição e custeamento dos gastos extras e apoio com esse atendimento à distância. E, para a qualidade de vida, nem se fala. Tenho uma filha e percebo o quanto era desgastante essa relação vida pessoal x profissional”. 

Vania conta que gastava horas para chegar ao escritório: “Perdia quatro horas em deslocamento para ir e voltar, sem qualquer aproveitamento, porque chegava em casa exausta. Era pensar em tomar um banho e dormir para acordar no outro dia às 5 horas da manhã. Mas ainda tinha os afazeres de casa, ajudar com os estudos da Laura”.

Para dar conta de tudo, ela tinha apoio da própria mãe que, inclusive, cuidava da neta para Vania trabalhar tranquilamente, ela complementa: “O remoto me possibilitou ser uma mãe muito mais presente na educação e lazer. Buscar uma qualidade de vida pra mim com atividades físicas regulares, estudar, ler um livro ou simplesmente sentar e assistir à TV ao lado da minha família. São quatro horas a mais todos os dias pra poder aproveitar”.

Atualmente, ela exerce suas atividades em sistema híbrido, trabalha duas semanas de forma remota e uma semana presencial. “Minha mãe continua me ajudando com a Laura, porém somente na semana que estou no presencial. Sem sombra de dúvidas, o modelo remoto e híbrido, para mim, faz muito mais sentido. Sinceramente, se hoje eu voltasse ao presencial 100%, iria buscar uma oportunidade no mercado que continuasse com o home office”. VANIA LOPES - Gerente de relacionamento comercial

Me dê motivos

Cada vez mais, o desafio das organizações será fazer com que os colaboradores queiram e vejam valor em suas idas esporádicas para o escritório e os líderes são parte importante desta solução. “Portanto, a palavra de ordem é flexibilidade. As pessoas não querem mais perder horas do seu dia em engarrafamentos e deslocamentos, sendo assim, quando a ida ao presencial for algo a ser feito, por que não testar novos horários e dinâmicas de chegada e saída?”, sugere Anderson.

Aliás, prepare-se porque o assunto, que representa uma espinha dorsal nas organizações, promete ainda muitos outros debates e desdobramentos. “Não creio que seja um tema que terá resolução em 2024. Na medida em que o mundo avançar e isso trouxer impactos para a rotina de trabalho, vamos precisar revisitar o tema. Afinal, em meio a tudo isso, outros temas podem impactar essa dinâmica, como a semana de trabalho de 4 dias, caso o tema avance”, finaliza Anderson.

Gestão humanizada

Diretora de Diversidade na Sociedade Brasileira de Teletrabalho (SOBRATT), Jorgete Lemos deve figurar na lista das pioneiras no país a atuar de forma remota. Ela conta que faz home office há 32 anos. “Então, não é nada assim de novidade, né? Expandiu agora, por causa da pandemia, e daí todos os holofotes ficaram sobre o teletrabalho e as suas formas alternativas de aplicação”.

E, justamente por conhecer bem o modelo, ela tenta compreender o posicionamento das empresas ao pedir que seus funcionários retornem ao sistema presencial. Entre os motivos alegados para a volta, de acordo com ela, estariam a saúde dos colaboradores, a produtividade e até a falta de confiança.

“Acho que estamos com uma série de questões que precisam ser repensadas. Na minha opinião, a primeira é a liderança. Ela conhece verdadeiramente a sua equipe? Confia nas pessoas e se comunica adequadamente?”, questiona Jorgete.

Porque, para ela, se houver um plano fechado com a liderança, que preveja entregas e prazos definidos, não importa se o trabalho é realizado de casa, de um café ou no coworking.

“Existe uma grande desconfiança das pessoas não estarem efetivamente em casa trabalhando. Então, acredito que uma das questões mais fortes é que, apesar de tudo, nós não conseguimos estabelecer essa relação de confiança. Por isso, a liderança precisa estar próxima, acompanhando visualmente as pessoas”. 

Jorgete lista ainda uma série de questionamentos que as organizações deveriam se fazer neste momento: será que o fato de o empregado estar presente na empresa representará, necessariamente, uma maior produtividade? Qual a diferença na qualidade da entrega presencial ou remotamente? As pessoas realmente estão se sentindo isoladas? Estão adoecendo por causa desse isolamento?

“Acredito que se elas estão adoecendo não é por causa do trabalho à distância, é porque o seu líder não está sabendo tornar o trabalho prazeroso. Porque o que torna a pessoa feliz, não importa se remota ou presencialmente, é ela saber que é reconhecida, valorizada e que aquilo que faz tem uma importância definida dentro do contexto”, destaca a especialista. 

Portanto, a saída seria atuar com uma gestão focada nas pessoas, que levasse em consideração o colaborador, suas necessidades e dificuldades também. “Porque estamos fazendo um discurso diferente da prática. Falamos da gestão humanizada, mas não estamos com gestão humanizada. Então, tanto faz se estamos presencial ou à distância, o que está faltando é essa preocupação com a dimensão física, emocional e social das pessoas”, analisa Jorgete. JORGETE LEMOS - Diretora de diversidade na Sobratt.

Artigo originalmente publicado no dia 19 de janeiro de 2024 no site da Revista Caótica, da Escola do Caos.
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